sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Resenha do livro "Cultura Corporal do Jogo"


 


CULTURA CORPORAL E EDUCAÇÃO FÍSICA

SANTOS, André de Souza
Acadêmico do Curso de Licenciatura em Educação Física
Faculdade de Ensino Superior Dom Bosco
Membro do GEPES PET-MEC
(Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação e Sexualidade)
Coordenadora: Profa. Dra. Cláudia Bonfim

BREGOLATO, Roseli Aparecida. Cultura Corporal do Jogo. São Paulo: Ícone, 2008. 256 p. (Coleção educação física escolar: no princípio de totalidade e na concepção histórico-crítica-social; v. 4)

Roseli Aparecida Bregolato é professora de Educação Física da rede pública do estado do Paraná. É pós-graduada em Metodologia do Ensino e ministrou cursos de Educação Física junto a órgãos educacionais do Paraná, Santa Catarina e Minas Gerais. Autora do livro “Textos de Educação Física para Sala de Aula”, agora, lança a “Coleção Educação Física Escolar”. Em quatro livros, o volume 1 se refere à “Cultura Corporal da Dança”, o volume 2 à “Cultura Corporal da Ginástica”, o volume 3 à “Cultura Corporal do Esporte” e o volume 4 à “Cultura Corporal do Jogo”.
A obra subdividi-se em sete capítulos respectivamente: Jogos Socializantes, Interativos e de Aproximação Corporal; Jogos de Dramatização; Jogos Rítmicos; Jogos Recreativos; Jogos Pré-desportivos; Jogos Indígenas e o Jogo da Capoeira.
Baseando-se no processo evolutivo histórico-cultural da Educação Física, nesta obra, a autora evidencia-nos os conteúdos abordados dentro do sistema de ensino e sua prática. Encontramos a ginástica, dança, esportes e jogos como conteúdos estruturantes da área.
Constatamos também a existência dos poucos utilizados “Temas Transversais”. Esses temas reportam-se não apenas a Educação Física, mas todas as áreas do conhecimento. São eles: Educação Sexual, Desigualdades Sociais, Falta de Trabalho, Qualidade de vida, Senso Ecológico, Deturpação de Valores e Declínio da Espiritualidade.
Inicialmente a autora aborda aspectos relacionados à Educação Ecológica, acreditando que uma relação saudável do ser humano com o meio ambiente é fundamental para sua existência. O ser humano não convive apenas com suas realidades físicas, mas também com suas realidades subjetivas, as quais não se podem ver, nem tocar, mas sentir.
Acertadamente a autora alega que, sem o devido cuidado e respeito para com o nosso meio, estaremos pormenorizando nosso próprio campo de atuação, não possibilitando uma relação saudável entre o homem e a natureza.
Outro elemento de grande importância para a Educação Física é a Educação Sexual. Nossa sexualidade se manifesta desde o nosso nascimento. Atos como sugar o leite da mãe, chupar chupeta e dedos, beijos, abraços, são importantes para o desenvolvimento de uma sexualidade saudável e natural.
No âmbito escolar atravessamos o processode maturação sexual, passamos parte de nossa puberdade em meio esse ambiente. Devido a altas taxas hormonais, iniciamos atividades como a manipulação e depois a masturbação, que podem ser consideradas como uma preparação para um relacionamento sexual entre parceiros no futuro.
Segundo a obra, uma vida saudável contrasta-se com hábitos saudáveis, como: alimentação balanceada, exercícios físicos, lazer, descanso, autoestima, socialização, sexualidade, contato com a natureza, evitar vícios como o alcoolismo e tabagismo.
Em se tratando do tema trabalho, há uma crítica em relação ao atual sistema econômico. Sistema esse que se caracteriza pelo alto nível de exclusão do trabalhador e sua força manual, devido à crescente das indústrias e inovações tecnológicas substitutivas. Acredita que a escola deva ter como objetivo a criação de mecanismos para propiciar o trabalho, e não apenas a preparação para um trabalho que nunca terá acesso. Além disso, a educação tem papel fundamental no desenvolvimento de uma consciência política que se paute em uma distribuição de renda justa e coerente.
Traçando-se uma perspectiva histórica da Educação Física, atestamos sua presença desde a Idade Antiga. Nessa época o homem já se exercitava. Para sobrevivência eram necessárias atividades como a pesca, caçada, corrida, saltos, longas caminhadas, arremessos, nadar, lutar, construir utensílios, e seu habitat.
A partir de então, as práticas corporais foram ganhando espaços nas sociedades, exemplos disso, são as danças nas tribos. Temos também, dentro da cultura Oriental o desenvolvimento dos exercícios físicos com finalidades higiênicas e terapêuticas. Exemplificando encontramos a Yoga e as artes marciais, com características disciplinares, de concentração e autocontrole.
Na Grécia, houve uma valorização das atividades físicas, principalmente após o sistema educativo elaborado por Platão. Porém, após Roma dominar a Grécia, as práticas gregas direcionaram-se a espetáculos em arena, como batalha de gladiadores.
Na Idade Média, as práticas corporais foram influenciadas pela religião, pregando-se uma superioridade do espírito em relação ao corpo e suas atividades.
Após esse período e inspirados nos ensinamentos gregos, alguns países europeus, sistematizaram as bases da Educação Física escolar denominando-a Ginástica. Ainda nessa época a Ginástica foi difundida ao militarismo, pelo excesso de guerras, e a necessidade de treinamento corporal. Doravante, a Educação Física foi inserida na escola caracterizando-se esportivista, principalmente após os Jogos Olímpicos de 1896.
No tocante ao lazer, é abordada toda a trajetória histórica da transformação do trabalho conciliado ao prazer, no trabalho desarticulado do ser social. Após a Revolução Industrial encontramos uma sistematização trabalhista, com horas determinadas de trabalho e fora do horário de trabalho. O trabalho até então, misturava-se com a vida pessoal, e, relativamente ao lazer, por exemplo: na sociedade rural, eram criadas festas para festejar boa colheita, havia consumo do próprio fruto do trabalho realizado. Os trabalhadores relacionavam-se sem uma mecânica comportamental de trabalho pré-estabelecida industrialmente.
Segundo a autora, o lazer de hoje está condicionado às implicações do trabalho. Somos sistematizados a um lazer paradigmático. Acredita-se que esse lazer construído ideologicamente, nos torna refém do sistema socioeconômico vigente. Serve para nos manter acomodados, ajustados a sociedade como está posta. Sem preocupação com injustiças sociais. Corroborando a obra, acredito estarmos vivendo um novo pão e circo.
Na sociedade hoje, a população convive com o acúmulo de horas de trabalho, ou baixo salário, como consequência desfrutam de um lazer limitado e, dentro dos moldes do sistema trabalhista. Segundo Marcelino apud Bregolato (2008, p. 53-54), os seguintes fatores dificultam a prática do lazer: fator econômico, tempo, espaço, o fator cultural machista, preconceito, desemprego, e o antilazer, este último utilizado também no processo de alienação e comodismo social.
Acertadamente a autora critica a forma como a criança hoje é precocemente preparada para o futuro, são caracterizadas como pequenos adultos. Têm suas atividades lúdicas diminuídas ou até retiradas, em troca de um preparo para o mercado de trabalho com atividades sistemáticas para esse fim. Cita ainda, os pais, professores e órgãos competentes como responsáveis a propiciar às crianças momentos de lazer.          
Tratando do tema aproximação corporal, o estudo credita na Educação Física uma grande esperança em relação à desmistificação do toque. Por se tratar de uma disciplina em que o professor atua com corpos e com o contato, é possível uma colaboração maior, visando reverter esse reducionismo da aproximação apenas como uma relação íntima, mas também uma forma de convívio social e afetivo.
Como sugestões, temos os trabalhos de dois-a-dois e em grupos, para a quebra de determinados comportamentos que se desencadeiam ao individualismo.
Falando-se do fenômeno jogo, a autora traça um paralelo entre o jogo de quadra e o “jogo” da vida. Constatando-se o jogo como uma ponte de relações entre as pessoas, podemos considerá-lo como um todo na vida do ser humano no que diz respeito a sua existência.
Como diz Freire apud Bregolato (2008, p. 71): “As relações entre jogo e educação, jogo e cultura, jogo e sociedade, jogo e processos de desenvolvimento da criança, jogo e vida são tecidas juntas”, enfim, no jogo temos a oportunidade de vencer, de perder, mas acima de tudo, de tentar mais uma vez.
Creditamos ao jogo a imaginação, nossa realização, o expressar de nossos desejos e sentimentos, descarregamos nossos impulsos, no jogo, existem possibilidades individuais e coletivas.
Como conta Freire apud Bregolato (2008, p. 74), o ser humano é dotado de uma habilidade poderosa, a capacidade de imaginar. Isso nos mantém vibrantes, mesmo com o passar dos anos. A imaginação é ilimitada e incansável. Nada como o jogo para aguçar a nossa imaginação, e potencializar nossas experiências humanas. Temos uma energia guardada para investir na criatividade, para construir cultura, para jogar, enfim, para sonhar. Independentemente de quais sejam nossos afazeres, nosso trabalho, essa energia sempre estará lá, para ser investida na imaginação.
Perante o estudo constatamos que o jogo é um amplo e rico recurso pedagógico. O jogo humaniza. No jogo, encontramos um ambiente de transgressão, para expressarmo-nos. Não estamos submissos à ordem estabelecida, nos tornamos autônomos. A escola precisa do jogo.
Para sua inserção no ambiente escolar, é necessária que se insira também uma filosofia cooperativa. Os jogos devem abordar: a cultural corporal, interação meninos e meninas, aproximação corporal, auto-expressão, criatividade, o prazer de jogar pela vontade de vencer, a cooperação. Interessante também a participação do professor nas atividades. O diálogo, a compreensão e a paciência são fundamentais para não gerar conflitos.
Desfragmentando os jogos em categorias temos os jogos socializantes, interativos e de aproximação corporal, recomendados para o início do ano letivo, com o objetivo de socialização imediata.
Temos também os jogos de dramatização. Esses jogos têm como característica aguçar a imaginação, na expressão de aspectos da vida real.
Continuando, encontramos os jogos rítmicos, objetivando a aprendizagem de movimentos corporais dentro de um ritmo estabelecido.
Encontramos nos jogos recreativos uma oportunidade para se trabalhar o desempenho de práticas esportivas mais elaboradas, ou seja, preparando assim o aprendiz, para uma futura vivência de exercícios.
Nos jogos pré-desportivos faz-se presente o caráter lúdico, enfatizando o prazer de jogar. A alegria e a descontração, e a liberação das emoções são características fundamentais desses jogos.
Falando-se em jogos indígenas, atestamos historicamente as manifestações lúdicas desses povos como expressão de vida. O brincar, jogar, dançar, as festas, os cantos, as lutas, os jogos, são rituais milenares transmitidos de geração a geração. Seus jogos se misturam com suas vidas.
Finalizando o estudo, foram abordadas características do jogo da capoeira. Entendendo a capoeira como uma construção histórica brasileira, considera-se também sua representação como parte de nossa cultura. Porém, com toda sua historicidade, a capoeira não tem seu devido lugar nas aulas de Educação Física.
Parte-se de um pressuposto que a capoeira não seja exposta nessas aulas por ser uma fonte de preconceito racial, por ser de origem negra, ou também por ser considerada uma prática da camada menos favorecida, evidenciando assim um preconceito de classe social.
O fato é que na capoeira temos ferramentas para uma liberação saudável da agressividade. O aluno se desprende de sua ofensividade de forma lúdica, além de explorar e compreender a história de uma arte tão expressiva dentro do cenário nacional.
Em conclusão, a autora contesta atuais metodologias e práticas pedagógicas presentes na disciplina, classificando-as como formas de sistematização e alienação social á longo prazo. Defende a inserção de novos valores capazes de colaborar com a formação de um ser crítico, porém, sociável.
Remetendo-se a uma linha histórico-crítica, Bregolato aborda a Educação Física escolar de uma forma totalitária apoiando-se na cultura corporal jogo. Evidente também sua identificação com a psicologia educacional. Pautando-se em autores como João Batista Freire e o próprio Paulo Freire, caracteriza-se humanista em sua maneira de pensar e se expressar, depositando na Educação Física a esperança de uma prática que colabore com a conquista da autonomia e emancipação do aluno como ser, despertando concomitantemente seu senso crítico.
Utilizando-se de uma linguagem simples, porém, objetiva, a autora demonstra-nos seu vasto conhecimento sobre Educação Física escolar. Na obra, elenca práticas que possam ser utilizadas em prol da melhoria do ensino, e consequentemente na construção de um conhecimento sólido.
Texto indicado a graduandos na área de Educação Física. Útil não apenas no tocante a metodologias, mas também nos ‘‘porquês’’ da utilização de cada método e seus respectivos resultados. 

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